domingo, 1 de julho de 2007

Morte e Renascimento


Sua vez. Não , não, já falei um pouco de mim, mas quero ouvir você me afirmando que eu não o conheço. Quero ver se tem essa cara de pau. Uhauhaahua, tá bom , tá bom, vou acreditar que você só estava de passagem e é novo por aqui. Não conhece nada da cidade e parou pra tomar informação e acabou se interessando pelo papo. Ok, ok. Quem sou eu pra te contrariar?



A primeira decisão de fugir e viver o que a vida tem a oferecer geralmente acontece em momentos de grande mudanças.

O meu momento foi assim, de surpresa. Sabe quando você tem ( ou ao menos imagina que tem ), tudo? Uma familia estruturada, pais amáveis, irmãos saudaveis, uma casa arrumada, com todo conforto? E de um dia pra outro tudo acontece, seus pais se separam, seus irmãos brigam e sua casa fica uma ruína.

Eu tinha 18 anos quando tudo aconteceu. Foi um momento difícil de imaginar, nem nos meus mais profundos pesadelos, mas aconteceu. Meu pai saiu de casa, minha mãe arranjou um trabalho e meu irmão mais velho começou a beber.

Apesar de tudo isso eu não pretendia chutar o "pau da barraca" mas, aconteceu uma coisa que me fez parar e olhar tudo de uma outra forma.

O nome de meu irmão mais novo não vem ao caso agora, nem mesmo nomes de conhecidos ou amigos de familia mas, acreditem ele foi o estopim para tudo começar.

Lembro que quando ele nasceu eu tinha apenas 6 anos, era todo pequenininho e eu queria segurar ele. Me falaram: "tome cuidado", e eu nunca mais o soltei. Eu cuidava dele como se fosse uma coisa preciosa, ainda com todos os problemas acontecendo em volta eu procurava cuidar para que ele nada sofresse. Mas ele tinha 12 anos quando ficou doente. Foram cerca de 6 meses de tratamento mas eu lembro como se fosse hoje.

Eu estava em casa , chovia lá fora e o telefone tocou, eu estava na casa de meu pai com a nova "esposa" dele, era minha tia do hospital, eu estava olhando pela janela, sentado à mesa do cafá. Eram exatamente 8:52h , lembro porque meu relógio quebrou nessa hora, na verdade ele n quebrou, eu o quebrei, deixei cair no chão. O telefone tocou, e a esposa dele atendeu, ouviu por alguns minutos e veio me falar.

Sabe quando o tempo para? Quando nada mais faz sentido? Ele morreu de leucemia às 7:15 daquela manhã. Nada adiantou, meses de quimioterapia jogados fora. Eu sorri, uma lagrima escorreu, eu me levantei e disse: ok, eu to indo. Ela perguntou se eu queria ir ao hospital e eu disse não. Peguei minhas malas e sai na chuva.

Havia um táxi na porta do predio, entrei, pedi que me levassem pro porto, um amigo da família era exportador, havia uma carga de saída para a Europa naquela tarde. Havíamos conversado sobre isso duas noites antes, num jantar que o meu pai oferecera a ele. Eu não expliquei, só disse que eu queria ir. Ele ligou pro meu pai, ficou sabendo de tudo ( isso eu só soube duas semanas depois quando já estávamos pra chegar ), me colocou no navio e eu parti rumo a uma nova vida, a um novo destino, eu já havia morrido antes, uma vez, quando tinha 6 anos e me mataram. Mas isso é mais pra frente, numa outra história, hoje estou falando da minha segunda morte, uma talvez mais dolorosa por envolver a pessoa que eu mais amava.

O engraçado é que eu precisei morrer dessa segunda vez pra renascer. Pra compreender que eu estava preso e presisava de liberdade. E nada me foi mais importante do que liberté, égalité et fraternité ( liberdade, igualdade e fraternidade ), Iluminismo, você já ouviu falar claro.


Mas chega por hoje. Eu também quero te ouvir, afinal desde que você entrou ainda não me disse nada de você. Afinal, de onde nos conhecemos? Ainda vou matar minha curiosidade e lembrar. Enquanto isso sente um pouco mais pra cá, começou a garoar e tem bastante espaço aqui no coreto, ( ou você não percebeu que estamos sentados em pleno coreto no meio dessa praça linda?). Precisa abrir mais os seus olhos.

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